Ganhando tempo… veja um breve resumo do que trata este artigo.

O brasileirinho…

  • A intenção é substituir o bloco cerâmico melhorando suas características técnicas (precisão dimensional; resistência);
  • Segundo o fabricante das formas, os blocos apresentam em média resistência de 2 MPa, o que é inferior aos 3 MPa exigidos dos blocos de concreto classe “C”, conforme a NBR 6136.
  • A espessura das paredes externas e internas do bloco brasileirinho também são menores que o especificado pela normalização.
  • O bloco brasileirinho compõe juntamente com uma canaleta e um meio bloco uma família, porém, incompleta, pois faltam os blocos de amarração “L” e “T” e os blocos compensadores.
  • O “brasileirinho” pode ser considerado um produto em desenvolvimento, experimental, e que precisa comprovar o seu desempenho frente às exigências de norma.

Há alguns anos atrás, por volta do ano 2000, um empresário do setor de máquinas e equipamentos para produção de artefatos de cimento, do interior do Estado de São Paulo, começou a observar as dificuldades encontradas pelas olarias na produção do bloco cerâmico para alvenaria.

O chamado bloco de concreto “brasileirinho” é fruto desta observação.

Antes de abordar diretamente o “brasileirinho” é preciso entender um pouco melhor o contexto das indústrias de blocos cerâmicos.

As dificuldades na produção do bloco cerâmico, ainda presentes, vão desde o licenciamento para a extração sustentável da argila comum até às questões ligadas ao processo de produção e qualidade final do produto.

A ANICER (Associação Nacional da Indústria Cerâmica) mantém, com o apoio técnico do Senai de Três Rios (RJ), um Programa Setorial de Qualidade (PSQ-BC), que visa reduzir a não conformidade sistemática do setor.

Até novembro de 2021, apenas 93 empresas estavam participando do PSQ-BC, de um total de mais de 4.300 olarias espalhadas pelo Brasil.

Os dados mais recentes da ANICER apontam o consumo mensal de 7,8 milhões de toneladas de argila comum utilizadas na produção de tijolos\blocos, o que representa cerca de 63% de toda a argila vermelha consumida no país.

A estrutura empresarial deste segmento é muito diversificada.

Estão presentes desde pequenos empreendimentos familiares artesanais, olarias de pequeno e médio porte com dificuldade de gestão e produção até empresas de médio a grande porte com maior grau de automação e melhores tecnologias.

Isso nos dá uma ideia da dificuldade do setor em estabelecer um padrão de qualidade de excelência.

Dito isso, fica clara a inspiração para o desenvolvimento do chamado “BLOCO DE CONCRETO BRASILEIRINHO”

Ele nada mais é do que uma alternativa para tentar substituir os blocos\tijolos cerâmicos.

A substituição visa dar um tratamento adequado às questões ambientais ligadas à extração da argila comum e ao gasto de energia para a sua produção (queima de lenha, combustíveis fósseis ou energia elétrica).

A intenção foi criar um bloco de concreto para alvenaria, similar ao “tijolo” cerâmico, mas que apresentasse melhores características técnicas, no que se refere à precisão dimensional, resistência e absorção de água.

Esse bloco de concreto poderia ser moldado para assemelhar-se aos blocos\tijolos menores até aos de maiores dimensões. Uma vez que o “tijolo cerâmico” possui uma grande variedade de tamanhos.

Seguindo nesta ideia, o Brasileirinho, deveria ser mais leve que os blocos de concreto tradicionais, o que poderia melhorar a condição de trabalho do pedreiro. Isto seria possível em função do seu menor tamanho e da menor espessura das paredes.

A ideia em si é bastante atraente e a visão do empresário identificou uma excelente oportunidade de negócio.

Mas veja, do mesmo modo como o bloco cerâmico precisa atender as especificações técnicas ditadas pela norma NBR 15270, o bloco de concreto também precisa atender aos requisitos de norma. No caso a NBR 6136.

Qual é a ideia deste artigo então? Vamos dar uma olhada nas informações técnicas disponíveis sobre o “Brasileirinho” e comparar com os requisitos de norma.

O que se tem de concreto, desculpem o trocadilho, sobre este modelo de bloco?

As informações disponíveis sobre este produto estão apenas no site ou no canal do YouTube da empresa que desenvolveu as formas, porém, são genéricas e não trazem dados de laboratório.

Quando buscamos informações na literatura técnica, como artigos, pesquisas ou resultados de ensaios que avaliem o desempenho físico e mecânico do “Brasileirinho” não encontramos.

Como se trata de um bloco de concreto, já vimos isso, ele deve atender os requisitos da NBR 6136 e, no mínimo, apresentar a resistência à compressão de 3 MPa, o que o enquadraria na classe “C” (blocos com ou sem função estrutural).

Segundo informações do fabricante das formas, este bloco atinge a resistência de 2 MPa, o que é levemente superior ao mínimo exigido para blocos cerâmicos pela NBR 15270-1, que é de 1,5MPa.

De qualquer modo, não está disponível, através de relatórios de laboratório, ou outras pesquisas, uma comprovação de que o mesmo atinja esta resistência.

O “Brasileirinho” deve ser avaliado e atender aos requisitos dados pela NBR 6136 e não pela NBR 15270, que se refere a blocos cerâmicos.

Se o resultado informado pelo fabricante estiver correto, então, está abaixo da resistência mínima exigida pela NBR 6136. Essa é a primeira informação objetiva.

Veja, mesmo este resultado, precisa de mais informações para ser corretamente interpretado.

Evidentemente o fabricante das formas deve estar se referindo a algum resultado informado por um cliente que produz o “Brasileirinho”, uma vez que não é produtor de blocos, mas fabricante de equipamentos.

Quanto à absorção, os blocos de concreto da classe “C” precisam apresentar absorção máxima de 12% em avaliações individuais e 10% na avaliação de lotes. No caso do “Brasileirinho, não encontramos esta informação.

Outro detalhe técnico importante, e que responde em boa parte pela leveza do bloco, é a espessura das paredes.

A NBR 6136 especifica para os blocos classe “C”, com largura nominal variando de 9cm a 19cm, uma espessura mínima de 18mm tanto para as paredes longitudinais quanto para as transversais.

O fabricante das formas informa que o bloco “Brasileirinho” de 4 furos possui paredes com espessura de 12 mm e os de 2 furos paredes entre 16 e 18mm.

 O bloco “Brasileirinho estrutural” tem as paredes mais espessas, podendo chegar a 20mm, porém, o normal é que seja de 15mm.

Outra proposição do desenvolvedor das formas é que a família do “Brasileirinho” (bloco inteiro + canaleta + 1\2 bloco) funcione como um “SISTEMA CONSTRUTIVO MODULAR”, porém, há um problema conceitual ai.

A primeira questão é que uma família de blocos, de acordo com a NBR 6136, deve ser composta, além do bloco inteiro, meio bloco e canaleta, por blocos de amarração “L” e “T” e blocos compensadores. Então, ainda falta desenvolver alguns elementos.

Outra questão. Um sistema construtivo modular, trata da construção de edificações com utilização de módulos individuais produzidos em fábricas, fora do canteiro de obras.

Uma vez preparados, os módulos são levados para o canteiro, onde são montados para formarem casas e edifícios modulares.

Talvez o que o fabricante das formas esteja tentando dizer é que o “Brasileirinho” permite trabalhar com o módulo básico brasileiro (M) que é de 100mm.

Analisando as informações disponíveis, o que o fabricante propõe, na verdade, se assemelha à produção de uma família de blocos que permitiria o desenvolvimento de edificações no sistema de “alvenaria estrutural”. Com todos os seus benefícios, é claro.

O sistema de alvenaria estrutural é constituído de paredes portantes, ou seja, não tem pilares.

Determinadas seções das paredes são dotadas de vergalhões de aço e posteriormente “grauteadas” para constituírem “reforços” semelhantes aos pilares.

O graute, grosso modo, é um concreto convencional produzido com agregados graúdos de no máximo 10mm.

A alvenaria estrutural possibilita o embutimento dos sistemas de água, esgoto, energia elétrica, etc.

Outra questão que precisa ser tratada aqui diz respeito ao modelo da canaleta; que, no caso, possui dois furos em sua base.

O fabricante sugere a possibilidade de transpassar os furos da canaleta com tubos de PVC que impediriam o seu grauteamento.

A função destes furos seria permitir, além da ventilação interna das paredes, a passagem das tubulações de água, esgoto, elétrica, etc. Uma boa ideia, sem dúvida.

Contudo, estas canaletas acabam por constituir cintas de amarração. E no sistema de alvenaria estrutural assemelham-se a vigas e, portanto, com função estrutural.

Não encontramos nenhuma informação técnica a respeito do cálculo estrutural avaliando a presença destes furos, o que seria importante, pois eles diminuem a seção transversal da cinta e consequentemente a sua resistência.

Outras vantagens associadas ao bloco ”Brasileirinho” são, na verdade, comuns a todos os tipos de blocos de concreto, como é o caso de não necessitar do chapisco quando da aplicação do emboço.

Qualquer bloco com a superfície lisa permite a aplicação direta de gesso, textura ou tinta.

Todo bloco e concreto de qualidade, cujo assentamento foi correto, não necessita da aplicação de grandes espessuras de emboço.

Bem, como podemos resumir a proposta do “bloco brasileirinho”?

Em princípio, a proposta se apresenta como uma ideia bastante criativa e toca em um tema bastante sensível, que é a questão ambiental. Há um apelo para reduzir a pegada de CO2 .

Embora este produto já esteja sendo comercializado em muitas regiões, principalmente no Norte, Nordeste e Centro Oeste, ainda carece de estudos que avaliem o seu desempenho físico e mecânico. Atualmente o Nordeste desponta como o seu maior mercado.

O “Brasileirinho” pode ser considerado um produto que ainda se encontra em desenvolvimento, e que precisa comprovar o seu desempenho frente às exigências de norma. A menos que estes dados já estejam disponíveis e não tenham sido divulgados.

Grande parte das vantagens associadas ao “Brasileirinho” não são exclusivas dele, pelo contrário, são proporcionadas por todo bloco de concreto de qualidade.

O único detalhe exclusivo, é o fato de que se assemelha ao bloco cerâmico em termos de dimensões e leveza.

Contudo, ainda é preciso demonstrar que um bloco moldado com as dimensões e características do “Brasileirinho” atende aos critérios de norma.

Outra informação relevante que deve ser considerada, é que a forma é disponibilizada apenas pela empresa que desenvolveu o modelo, mas pode ser adaptada a qualquer tipo de equipamento.

Espero ter colaborado, de algum modo, a partir das informações disponíveis, com o entendimento deste modelo de bloco.

Até o próximo artigo.